Ideias Livres

quarta-feira, setembro 21, 2005

Há malta que nem com dois Estalines...

A subsidiação de alguns produtos ou serviços ocorre, geralmente, quando os mesmos apresentam um custo superior ao da sua concorrência mas o subsidiador - o Estado - considera que, em nome de um "interesse colectivo" por ele depreendido, normalmente em privilégio de um sector ou corporação, o seu consumo deve ser incentivado por via da diminuição directa do seu preço para o consumidor. Este é o típico subsídio aos produtos agrícolas, dado aos agricultores para lhes permitir colocar os seus produtos a preços inferiores aos do seu custo real no mercado - isto é, em dumping.

Existem porém alguns casos ainda mais enviesados, em que produtos cujo preço é já mais barato que o da sua concorrência vêm ser-lhes outorgada uma comparticipação de forma a aumentar ainda mais a vantagem competitiva. Um exemplo disso são os medicamentos genéricos, que tiveram até agora uma comparticipação suplementar de 10% face aos restantes medicamentos. Como analogia, imagine que, quando apareceram os retalhistas de hard-discount em Portugal, como o Dia, o Lidl ou o Plus, o Estado decidia que, usando o dinheiro dos nossos impostos, iria fazer um desconto de 10% a todos os que lá comprassem produtos...

Parece que este claro subsídio vai, finalmente, ser eliminado. Como seria de esperar, o lóbi atingido pela reposição da justiça já veio a público dizer que acha mal, que esta comparticipação só deveria ser eliminada quando os genéricos tivessem atingido uma quota de 20% de mercado, e que é fundamental que o Estado invista em campanhas de informação para incentivar a prescrição e a compra de genéricos. Para conseguir passar a minha mensagem vou recorrer novamente a uma comparação.

IKEA, diz-vos alguma coisa?

Ora bem, tal como os genéricos, era amplamente consumido no resto da Europa, mas não existia em Portugal.
Tal como os genéricos, tinha a sua presença num mercado essencial para a sociedade de bem-estar em que vivemos.
Tal como os genéricos, tinha como estratégia providenciar ao mercado produtos muito semelhantes a outros já existentes, mas a preços muito mais baratos.

Porém, enquanto os genéricos foram comparticipados em 10% face à concorrência, o IKEA teve de pagar do seu bolso todas as obras públicas em redor da sua loja de Alfragide.
Enquanto os genéricos tiveram fortes campanhas públicas de promoção da sua compra, o IKEA, como um normal participante do mercado, pagou do seu bolso todas as campanhas de promoção da marca e dos produtos.
Enquanto o representante das empresas de genéricos anda a choramingar na comunicação social, os responsáveis do IKEA trabalham afincadamente para nos servir bem, de forma a que os continuemos a preferir face à concorrência.